09 fevereiro 2007

Barbárie

Quando acontece algo tão chocante como o que aconteceu o garoto João os ânimos se exaltam, exige-se o fim do ECA (cujo o nome já diz tudo) e brada-se por pena de morte.

Nós pagamos um preço muito alto por vivermos na barbárie e querermos fazer de conta que somos muito civilizados. Um sistema de leis deve sempre ser moldado em função da realidade na qual a sociedade vive. O brasileiro optou por viver nesta barbárie que se tornou o Brasil e ter um sistema penal escandinavo, fazer o quê?

O fim do ECA e a pena de morte deveriam ser discutidos não apenas em momentos de emoção como este, mas, principalmente, nos raros momentos de tranquilidade. Mas não! Quando tudo está calmo, o brasileiro quer se passar por cidadão civilizado, um lorde, bem diferente daqueles bárbaros dos países que condenam crianças de 10, 12 ou 13 anos à prisão.

É impressionante como, apesar de toda a evidência de que o ECA é um fracasso retumbante, não há um movimento organizado para acabar de vez com essa excrescência legal. Não se iludam: os responsáveis pelo ECA não moverão um dedo. Eles possuem porte de armas, seguranças armados, etc. e correm pouco risco de pagar na pele o preço dessa verdadeira brincadeira de mau gosto.

O processo de democratização é mais doloroso do que imaginávamos. Poder votar é a parte mais fácil. O mais difícil é escolher os candidatos certos. A população parece ainda não ter sacado isso, votando muitas vezes em candidatos cuja agenda é claramente hostil a dos seus próprios eleitores.

Talvez um dia a população aprenda que políticos vivem de popularidade. Se a população apóia, para se sentir civilizada, a tese de que os criminosos são vítimas da sociedade, que a culpa na verdade é da sociedade que produz criminosos, que punição não inibe o crime, enfim, toda aquela baboseira progressista e vota em políticos com este tipo discurso, é bem provável que outros políticos passem a defender este ponto de vista apenas para angariar votos.

E assim surge o ECA.

Sempre que vejo um candidato - geralmente de esquerda - propondo leis absurdas que sacrificam a classe média, fazendo discursos que demonizam esta mesma classe média como elite insensível e mesmo assim recebendo votação maciça desta mesma classe média, eu lembro das palavras de Nelson Rodrigues:

"O brasileiro, para não passar por reacionário, é capaz de cometer as maiores atrocidades."