06 janeiro 2007

Cabral, herança maldita e Freakonomics

Virou moda: o governante acaba de tomar posse e logo diz que tem em suas mãos uma herança maldita. Ou, em outras palavras, um baú de problemas.

O governador afirma que recebeu o estado de Rosinha Garotinho como um "baú de problemas" e "cheio de gambiarras". Seus secretários Joaquim Levy (Fazenda) e Sérgio Rui Barbosa (Planejamento) buscam soluções para organizar as finanças do Rio.

Ué, não sabia disso antes de se candidatar?

Mas nem tudo está perdido: nosso governador é chegado a uma leitura interessante. Aparentemente leu o livro Freakonomics.

Cabral citou o livro ‘Freakonomics’ como inspiração para campanha de planejamento familiar. O autor argumenta que a autorização do aborto nos EUA, nos anos 70, reduziu a criminalidade. O governador, no entanto, considera a posição de Levitt "radical".

Bem, eu também li o livro e não vi nenhuma "posição" tomada pelo autor. Muito pelo contrário, se bem me lembro. Exibir dados que relacionam fatos - ou relacionariam, já que a questão acabou se tornando polêmica - não é adotar uma posição.

Afirmar isso é como se disséssemos, após mostrar que um corpo cai ao ser largado, que nossa posição é a favor da lei da gravidade.

França

Como sempre, metida com os piores tipos que esse nosso planetinha hospeda.

WTF?! (*)

Nunca fui freqüentador do Blog do Noblat. Não que tenha alguma restrição ou coisa parecida era apenas falta de vontade mesmo. Hoje tava dando uma olhada na página do Globo é vi o link para o blog dele. Resolvi dar uma conferida...

Bad move.

Dou logo de cara com um post digno do Zuenir Ventura.

Os cariocas que me perdoem: o Rio é a cidade mais bonita do Brasil - e talvez do mundo, Veneza à parte. Mas Salvador deixa o Rio no chinelo quando se trata de "alto astral".

WTF?!

Este é o tipo comentário tolot que nos permite tirar apenas duas conclusões sobre o autor:

(A) É um ignorante soberbo, já que é bem improvável que ele conheça todas as cidades do mundo. Assim sendo, optou pelo famoso "o que eu desconheço não exsite." Expressão muito mais cuidadosa seria "o Rio é a cidade mais bonita que eu conheço", o que não deixa de ser igualmente triste anyway.

(B) É um demagogo atrás de simpatia dos leitores, caminho escolhido por 9 entre 10 colunistas dos meios de comunicação. É muito comum em textos de cronistas ou colunistas de futilidades do dia a dia, mas foi a primeira vez que li algo do tipo em um blog político.

Mas o mais engraçado foi a discussão nos comentários envolvendo os cariocas que realmente é um povo alucinado. Quanto mais ignorante um carioca é em relação ao mundo, mais ênfase ele coloca na defesa de que o Rio é a cidade mais bonita do mundo.

Anyway, acho que não volto mais lá... Para questões políticas o melhor blog ainda é o do Reinaldo Azevedo.

PS: No texto tem um "mal humor" que creio ser inadmissível para quem vive da escrita. Achei que ia passar em branco nos comentários mas, até onde tive paciência de ler (é divertido ver a ignorância soberba somente até certo ponto, depois enche), dois leitores comentaram sobre o erro.

(*) WTF?! : What the fuck?! Em português: "Que porra é essa?!"

Esclarecimento

Relendo o post Jogando pra torcida, notei que posso ter passado a impressão de que eu acho que o governo do casal Garotinho não tenha sido horroroso. Sim, ele foi horroroso como foram horrorosos os governos anteriores e como deverá ser horroroso o governo do Sérgio Cabral.

O que eu quis enfatizar naquele post foi o fato de a implicância do carioca com o casal Garotinho ser fruto menos da incompetência destes como governadores que da influência do beautiful people do Rio de Janeiro que se viu colocado em segundo plano pelos governadores em prol de uma estratégia de governo voltada para o populismo.

Mas o Sérgio Cabral já está ajeitando as coisas para vocês, galera suingue sangue bom.

Irretocável II

É também este outro texto do meu xará que complementa o texto anterior do Paulo Guedes.

Há, no Brasil, uma regra difundida mas que é (i) ineficiente economicamente e (ii) bastante sofrível, moralmente. Trata-se da regra da “mão na cabeça do coitadinho”, uma extensão da famosa regra de Gérson para uma classe de pessoas que se auto-denominam “injustiçados” (”alguém tem que dar um jeitinho…na minha situação). Fingem desconhecer o fato de que pessoas reagem a incentivos e se apresentam como vítimas das mais diversas conspirações: dos judeus, dos capitalistas, dos japoneses, dos chineses, dos empregadores, dos professores, dos coronéis, etc.

(...)

Em um país caracterizado pelo gosto à cultura do “coitadinho”, a última que veremos é uma classe empresarial realmente empreendedora. O resultado mais provável é uma população de pedintes, de mão estendida, requisitando ajuda para si, claro, todos orgulhosos de estarem em posição quadrúpede sem perceberem o perigo que correm…

Irretocável

Este texto do Paulo Guedes.

As economias de mercado são essencialmente mecanismos para a mobilização de recursos, instrumentos de coordenação de esforços produtivos. De um lado, temos os recursos econômicos: tecnologia, instalações industriais, mão-de-obra aperfeiçoada por educação e treinamento, organizações empresariais, instituições públicas e recursos naturais. A mobilização, a coordenação e o uso eficiente desses recursos pela lógica dos mercados produzem, por outro lado, uma fronteira de possibilidades de produção de bens e serviços. A invasão desse espaço por uma lógica de extorsão, baseada em poder político ou pressões de grupos de interesse, interrompe o mecanismo de criação de riqueza. Derruba a capacidade produtiva do país para bem abaixo das possibilidades permitidas em uma economia de mercado, por ineficiência, capacidade ociosa ou má alocação de recursos.

É um desastre quando a extorsão começa a se tornar parte da lógica da vida em sociedade, na tentativa de usar o Estado para apropriação de fatias da renda nacional. Repare nos efeitos sociais incendiários: uma elite de servidores públicos do Poder Legislativo tenta aumentar seus vencimentos em 90%, diante da inflação de 3% ao ano, enquanto outra elite, a do Poder Judiciário, com vencimentos mensais em torno de R$ 24 mil, contesta a pretensão do Legislativo, mas reivindica para si novos aumentos e vantagens adicionais.

Os sinais da nova lógica se irradiam. Um jovem da zona rural observa resultados mais rápidos filiando-se ao MST e invadindo terras em vez de cursar Agronomia para melhorar suas qualificações. Os sindicalistas acreditam que passeatas e manifestações, em vez de horas de trabalho e aperfeiçoamento profissional, sejam a chave para melhores remunerações. Empresários e grupos de interesse aproximam-se do Estado em busca de favores especiais. E, na semana passada, assistimos à vergonhosa disputa entre artistas e atletas por recursos de incentivos fiscais num país de miseráveis.

05 janeiro 2007

Jogando pra torcida

Nunca fui com a cara do novo governador do Rio de Janeiro. Quando ele prometeu combater a criminalidade o discurso me soou mais falso que nota de 3 dólares.

Pois bem, malandro certamente ele é.

Uma das broncas que a zelite carioca tinha do casal Garotinho é que ele adotou com tática deixar de lado a Zona Sul e abraçar o populismo. Mais ou menos o que Lula fez em âmbito federal. Isso desagradou imensamente o beautiful people carioca, cujas colunas de jornais não paravam de malhar "simpático" casal.

O novo governador, como não é bobo nem nada, sabe que mais importante (e mais fácil de implementar) do que o estado estar seguro é o beutiful people dizer que ele está seguro.

Se todo mundo tem um preço, colunista está sempre em promoção.

Pois bem: acabo de fazer o trajeto Botafogo / Maracanã e não vi uma única viatura policial nas ruas depois do Túnel Santa Bárbara (antes dele não lembro). Mesmo em pontos onde era comum a presença. Provavelmente todas foram deslocadas para as partes mais nobres da cidade a fim de aumentar a sensação de segurança dos formadores de opinião.

Em breve estaremos lendo como o novo governador competentemente reverteu o quadro instaurado pelo maléfico casal Garotinho.

E nós que vivemos aquém do Túnel Rebouças só nusfu.

04 janeiro 2007

Do jeito que eu gosto

Longe de mim querer pautar os textos de alguém, mas é este tipo de crítica que eu acho que Olavo faz melhor nos jornais: cultural.

Curiosamente, a erudição em detalhes irrelevantes, de ordem folclórica, histórica ou filológica, não ofende a ninguém. É até um mérito. O que o sujeito não pode é mostrar um conhecimento extensivo das obras maiores, um obsceno domínio dos problemas essenciais em várias áreas do pensamento ou das ciências. Em qualquer discussão pública, a familiaridade com o status quaestionis é não somente desnecessária como inconveniente. Um bom sujeito consente em ignorar tudo o que seus colegas de universidade e mídia ignoram, de modo a não pegá-los jamais de surpresa. Se você diz algo que eles não sabem, isto prova que você é um ignorante, um amador enxerido. Ou então é um louco que anda vendo coisas.

E ninguém se escandaliza

Deixemos a corrupção e a roubalheira de lado por um momento. Por que ninguém se mostra indignado com interferências como esta de um poder no outro?

BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva interferiu pessoalmente na sucessão da Câmara, na noite desta quarta-feira, ao se encontrar, separadamente, com o candidato do PT à Presidência da Câmara, Arlindo Chinaglia (SP), e, mais tarde, com o presidente da Câmara e candidato à reeleição, Aldo Rebelo (PCdoB-SP).

Segundo interlocutores do presidente, Lula quis saber da situação na Casa e disse que "não quer brincadeira" na disputa, reafirmando o discurso de que é importante a base estar unida e que não pode haver surpresas, como uma derrota. Mas assessores negam que Lula tenha pedido para algum dos candidatos desistir.

Este tipo de deformação é incrivelmente danoso ao regime democrático que, para não correr o risco de se tornar uma tirania, deve manter seus poderes independentes entre si.

Quando um poder toma conta de um outro, estamos a caminho da tirania.

Quando um poder toma conta dos outros dois, já estaremos na tirania sem saber.

02 janeiro 2007

Soy bufón pero no soy estúpido

Só aqui no Bananão é que nego se dá o luxo de ser bufão E estúpido!

Se você acompanhou a troca acalorada de insultos entre a Venezuela e os Estados Unidos nos últimos 12 meses, poderia ser facilmente perdoado por assumir que a relação comercial entre os dois países é igualmente frágil.

Mas nada poderia estar mais longe da verdade. Enquanto o presidente venezuelano, Hugo Chávez, lança ataque atrás de ataque contra a Casa Branca, e vice-versa, o comércio entre os dois países está na verdade se fortalecendo.

Aqui.

Ben Shneiderman

Foi esta entrevista que eu mencionei no post Computador e eu.

Pena que o entrevistador tenha sido tão fraco...

Historiador de esquerda

Não sei o por quê, mas eu às vezes gosto de ver algumas entrevistas de ícones do pensamento esquerdista (paradoxo, eu sei). O que eu acho mais interessante é a capacidade que essas pessoas têm de assumir que o QI dos seus espectadores está no mesmo nível do de um hamster.
Não se enganem, isso é um talento.

Eu, sempre que vou falar algo, imagino um ouvinte inteligente que vai questionar minhas palavras com um argumento pertinente e, em certas ocasiões, me mantenho calado. Essas pessoas não possuem a mesma limitação Elas assumem uma estupidez absoluta da sua platéia e disparam um monte de inverdades e absurdos que fariam corar o mais cara-de-pau dos vigaristas.

E quando você acha que ele vai ser esculachado, rá! Ele é alçado ao posto de pensador eminente.

Por exemplo, este historiador, assumidamente de esquerda e que admite fazer doutrinação dos seus alunos, com a cara mais dura possível, nos diz que não existe uma esquerda ativa nos Estados Unidos atualmente. E, pasmem!, que jornais como o New York Times e Washington Post colaboraram com a administração Bush.

É um talento, é um talento.

01 janeiro 2007

Borboleta

Foi impressão minha ou o Lula, no seu discurso de posse, recitou a estorinha da borboleta como se fosse algo inédito que tivesse saído do fundo do seu coraçãozinho operário?

Eu pedi forças... E Deus deu-me dificuldades para fazer-me forte.
Eu pedi sabedoria... E Deus deu-me problemas para resolver.
Eu pedi prosperidade... E Deus deu-me cérebro e músculos para trabalhar.
Eu pedi coragem... E Deus deu-me obstáculos para superar.
Eu pedi amor... E Deus deu-me pessoas com problemas para ajudar.
Eu pedi favores... E Deus deu-me oportunidades.
Eu não recebi nada do que pedi... Mas eu recebi tudo de que precisava.

Esse ano começou maravilhosamente bem!

Via Brasil

A Globonews tem em sua grade um programa interessante chamado Via Brasil.

Apesar do tom hipócrita homem-do-povo-desdentado-analfabeto-que-possui-grande-sabedoria que é presente em praticamente todos os programas da televisão brasileira, o programa tem uma enorme utilidade: mostrar que alguns lugares do Brasil são pobres - alguns paupérrimos, na verdade - somente por causa das pessoas que habitam este país.

Fico imaginando estados como Rio Grande do Norte e Ceará, para citar apenas dois, nas mãos dos americanos e sua espetacular capacidade de gerar riqueza. Para se ter uma idéia, estou falando de um povo que consegue construir uma atração turística em torno de uma marmota.

Isso não é pouca coisa! :-)

Exemplos mais relevantes do modo agressivo como os EUA trabalham o turismo são as praias do Hawaii e as da Flórida: um show de infraestrutura.

Freqüentemente neste programa são exibidas praias desertas belíssimas. Lugares que turistas do mundo inteiro buscam para passar suas férias.

Aqui um parênteses: por turista eu digo aquele que viaja com sua família, gasta, gasta, gasta, gasta muito e - principalmente - volta ou indica mais gente. Aquele tipo que viaja atrás de prostitutas deve ser enxotado. Aquele que viaja com dinheirinho contadinho não é para ser espantado mas não pode ser o foco. Em lugares como Aruba e Hawaii era comum conversar com pessoas que estavam na sua sexta, sétima ou até décima viagem.

Voltando ao assunto, é triste ver que temos em nossas mãos matéria-prima para fazer um produto que turistas do mundo inteiro estão ávidos por consumir. E dispostos a pagar muito para isso.

Temos que copiar o que os principais destinos turísticos do mundo implementaram: hotéis com ampla e sofisticada infraestrutura, capazes de oferecer conforto e segurança para seus hóspedes. Tudo isso, claro, a um preço razoável. Não faz sentido um turista despencar para uma pousada aqui no Brasil, pagar mais de US$150.00 por uma diária e ter que dormir num quarto sem ar-condicionado quando ele pode pagar US$70.00 por um apartamento totalmente mobiliado em Waikiki, o ponto mais badalado de Honolulu. Ou pagar US$100.00 por uma diária de hotel na praia mais badalada Aruba, com direito a café da manhã, academia, etc.

Outra coisa que precisa ser mudada por aqui é essa idéia de que o atraso é bom. Claro que a esmagadora maioria das pessoas que acham que seus balneários devem continuar imaculados não gostariam de viver lá. Afinal de contas, quem gosta de viver em lugares com energia elétrica precária, saneamento básico ruim ou inexistente, nada de TV a cabo, sem banda larga, sem cinemas, nada de teatros e, last but not least, sem comércio ambundante?

Eu não gosto. E certamente nem os advogados do atraso.

Mas muitos não se incomodam de achar que os moradores dos balneários devem viver nestas condições para que o paraíso bucólico e imaculado seja assim mantido.

Saddam

Não ia falar mais nada sobre o assunto, mas achei este post muito interessante.

4. O julgamento de Saddam é um julgamento pelos vencedores, mas por comparação com outros casos, até é dos julgamentos pelos vencedores aquele que menos críticas merece. Saddam, ao contrário de outros criminosos de guerra, foi julgado pelos tribunais do seu país, por juízes do seu país, por crimes que ninguém contesta, à luz de leis compatíveis com aquelas que vigoravam no seu país à data dos crimes e foi condenado a uma pena compatível com o sistema jurídico iraquiano.

VIP

Atualmente no Rio de Janeiro, até torneio de porrinha tem área VIP.

O pior é que muitas vezes a única coisa que ela oferece de especial é uma grade que mantém a patuléia longe da aristocracia.

Coisa de gente que gosta de povão, de mistura e de curtir junto à massa, entende?

Outro mundo

Brasília é um outro mundo.

Vendo alguns trechos da posse do Lulla, foi impossível não perceber a excitação autêntica dos papagaios de pirata que acompanhavam o presidente e seus Blue Caps no interior da Câmara.

Republiqueta das bananas nem é mais suficiente para descrever o Bananão.

Reciprocidade

O governo da Bolívia deu uma mostra de como se lida com esses ianques:

- A Bolívia, por mais que seja um país pequeno, tem dignidade ... por isso concordo plenamente que passe do grupo um para o grupo três de vistos a cidadão dos Estados Unidos com base na reciprocidade - disse o presidente Evo Morales durante uma reunião ministerial que convocou para a meia-noite (no horário local) de segunda-feira e foi transmitida pela tevê.

De acordo com a nova classificação de vistos, na lista um estão os países que não requerem visto de entrada, na dois aqueles que requerem visto sem consulta e na três, visto com consulta.

Os americanos agora passam para a lista três, e vão precisar, a partir desta segunda-feira, um visto com consulta para entrar na Bolívia, tal como ocorre com os bolivianos que pretendam viajar aos EUA.

A posição da Bolívia faz todo o sentido do mundo. A Bolívia, um país rico e desenvolvido, além de ser um dos maiores destinos turísticos do mundo, atrai muitas pessoas que querem viver lá ilegalmente. Se eles deixarem as pessoas entrarem sem controle, principalmente oriundas do paupérrimo Estados Unidos da América, vai tudo virar bagunça.

Segundo informações vindas de Washington, o presidente Bush está tão preocupado com essa decisão que nem dormiu direito de ontem pra hoje. Mandou convocar uma reunião de emergência com a cúpula do governo para resolver esse gravíssimo problema ASAP.